14 de fevereiro de 2014

Uma Lição vinda de Fukushima



[Fonte]: Fórum Mirangol, por Patinho Feio.

A carta a seguir foi escrita por Ha Minh Thanh, um imigrante vietnamita que é polícia em Fukushima, no Japão, a seu irmão, mas acabou por chegar a um jornal em Shangai que a traduziu e publicou.
Querido irmão,

Como estão você e sua família? Estes últimos dias tem sido um verdadeiro caos. Quando fecho os meus olhos, vejo cadáveres e quando os abro, também vejo cadáveres. Cada um de nós trabalha umas 20 horas por dia e mesmo assim, gostaria que houvesse 48 horas no dia
para poder continuar a ajudar e a resgatar as pessoas.
Estamos sem água, eletricidade e as porções de comida estão quase a zero. Mal conseguimos mudar os refugiados e logo há ordens para os mudar para outros lugares.
Actualmente estou em Fukushima - a uns 25 quilômetros da central nuclear.

Tenho tanto a contar que se fosse relatar tudo, esta carta se tornaria um verdadeiro romance sobre relações humanas e comportamentos durante tempos de crise.
As pessoas aqui permanecem calmas - seu sentido de dignidade e comportamento são muito bons - assim, as coisas não são tão más como poderiam. Entretanto, mais uma semana, não posso garantir que as coisas acabem por chegar a um ponto onde não poderemos dar protecção e manter a ordem de forma apropriada.
Afinal de contas, eles são humanos e quando a fome, a sede se sobrepõem à dignidade, farão o que tiver que ser feito para conseguir comida e água. O governo está a tentar fornecer suprimentos pelo ar enviando comida e medicamentos, mas é como jogar um pouco de sal no
oceano.

Irmão querido, 

houve um incidente realmente tocante que envolveu um rapazinho japonês que ensinou a um adulto como eu, uma lição de com se comportar como um verdadeiro ser humano. 

Ontem à noite fui enviado para uma escola infantil para ajudar uma organização de caridade a
distribuir comida aos refugiados. Era uma fila muito longa e notei, no final dela, um rapazinho de uns 9 anos que usava uma camiseta e um short. Estava a ficar muito frio e fiquei preocupado se, ao chegar a sua vez, poderia não haver mais comida. Fui falar com ele. Ele contou-me que estava na escola quando o terramoto ocorreu. O seu pai, que trabalhava perto, estava a dirigir-se para a escola para o apanhar e ele, que estava no terraço do terceiro andar, viu quando a onda tsunami levou o carro com o seu pai dentro. Perguntei sobre a sua mãe e ele disse-me que a sua casa era bem perto da praia e que a sua mãe e a sua irmãzinha provavelmente não sobreviveram. Notei que virou a cabeça para limpar uma lágrima quando perguntei sobre sua família. O garoto estava a tremer. Tirei a minha jaqueta de polícia e coloquei-a sobre ele. Foi ai que a minha bolsa de comida caiu. Peguei-a e dei-lha, dizendo:
"Quando chegar a sua vez a comida pode já ter acabado. Assim, aqui está a minha porção de comida. Eu já comi. Porque é que tu não comes"? 
Ele pegou na minha comida e fez uma reverência. Pensei que a iria comer imediatamente, mas ele não o fez. Pegou na comida, foi até ao início da fila e colocou-a onde todas as outras comidas estavam à espera para serem distribuídas. Fiquei chocado. Perguntei-lhe porque é que ele não a tinha comida comido, indo  colocá-la na pilha de comida para distribuição. Ele respondeu:
"Porque eu vejo pessoas com mais fome do que eu. Se eu colocar a comida lá,
eles irão distribuí-la com mais igualdade".
Quando ouvi aquilo, virei-me para que as pessoas não me vissem chorar.
Uma sociedade que pode formar uma pessoa de 9 anos que compreende o conceito de sacrifício para o bem maior, deve ser uma grande sociedade, um grande povo.

Bem, envie minhas saudações à sua família. Tenho que ir, o meu plantão já começou.

Ha Minh Thanh

"You should be the change that you want to see in the world".